A História da Escola Santo Inácio

A ESCOLA DA CONGREGAÇÃO MARIANA

Tradicionais colégios, que muito santista recorda com saudade, independentemente de serem públicos ou particulares, marcados por professores que se destacaram na Cidade, e por eventos que também fizeram história. A Escola Noturna Santo Inácio e a Congregação Mariana da Anunciação de Santos (CMA) surgiram em 1921 e sua história foi lembrada em uma revista editada especialmente pela escola em novembro de 1971, comemorativa do jubileu de ouro da instituição jesuíta (que naquela data foi declarada de Utilidade Pública, através de propositura do vereador Fernando Dias Oliva, na Câmara Municipal de Santos). Alguns dos textos, aliás, foram resgatados de outra publicação, editada 25 anos antes, no jubileu de prata festejado em 1946:
 

A escola noturna e a congregação, em suas antigas instalações


No jubileu de prata, um relatório contava as primeiras estórias

 
Quando em 1946, a Escola Noturna Santo Inácio completou seu Jubileu de Prata, a diretoria da época apresentou um relatório dos primeiros 25 anos em forma de revista. Através dele, podemos tomar conhecimento do que foi [o] início da escola, as dificuldades encontradas, mas sempre superadas graças ao trabalho eficiente dos congregados e dos diretores da Congregação Mariana da Anunciação, contando também com o apoio do povo e do comércio em várias campanhas que foram lançadas.
Esse documento, que pertence ao arquivo da Escola, é quase único e acreditamos ser importante, principalmente para as novas gerações de congregados, a sua republicação quase na íntegra, dentro desta revista em que se comemora o Jubileu de Ouro.
 
Histórico
Ao se aproximar o jubileu de ouro de sua ordenação sacerdotal, manifestou o saudoso Cardeal D. Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti o desejo de que, dentre as comemorações projetadas, se incluísse a fundação de 50 escolas para pobres, considerando a premência do problema do analfabetismo no Brasil.
Acolheu o patriótico apelo o apostólico padre José Visconti SJ. [N.E.: SJ. = Superior Jesuíta], cuja passagem pela nossa cidade caracterizou-se por tantas obras de religião e ação social. Decidiu fundar uma escola noturna, para meninos pobres, condoído que se achava da situação de abandono em que viviam os menores. Secundou-o na sua iniciativa a Congregação Mariana de Santos, de que então era diretor, corporificando-se então a idéia.
Estava pois fundada modestamente a Escola Noturna Santo Inácio, cujas primeiras aulas funcionaram no prédio 370 da Rua da Constituição. Devido à exigüidade das instalações, mudou a Congregação sua sede para o prédio 327 da mesma rua, a fim de melhor poder acolher o número elevado de crianças que acorriam à matrícula.
Amparada sempre pela abnegação dos professores, pela simpatia das autoridades do ensino, pela imprensa e pelo auxílio de benfeitores dedicados, dentre os quais não podemos deixar de citar os nomes das saudosas sras. Izabel Santos, Lili Freire, do sr. Godofredo de Faria e sra., e do nosso benemérito comércio de Santos, lançou-se a diretoria no ano de 1929, numa campanha para a aquisição de um prédio próprio e conveniente, onde pudessem ser bem instalados os diversos departamentos da Congregação e, especialmente, a Escola Noturna, objeto de desvelo e preferência dos Congregados.
Asism, foi adquirido, por escritura pública, o prédio nº 45 da Rua 7 de Setembro, onde vêm funcionando ininterruptamente as quatro salas de aula da Escola.
 
Ensino e organização
O ensino ministrado aos alunos é inteiramente gratuito, recebendo eles não só as lições das diversas matérias, acompanhando o programa oficial, como também instrução cívico-religiosa que os habilite a serem cidadãos úteis à Pátria. De fato, nas diversas categorias de profissões, deparamos jovens e homens que passaram pelos bancos da Escola, e estamos certos, honram o seu nome e correspondem aos ensinamentos benfazejos que dela receberam.
São também dispensados aos alunos os cuidados do corpo pelo esporte, assistência médico-dentária. Por gentileza da Cia. City, os passes com abatimento são também fornecidos aos alunos. Todos os anos fazem a primeira comunhão em solenidade própria. Outras formas de assistência não lhes têm faltado, como roupas, medicamentos e até colocação em diversos misteres, conseguidas pela interferência dos congregados.
 
Estatística
Nos primeiros 20 anos de funcionamento, a freqüência média dos alunos atingiu a 140 anualmente. Damos a seguir o quadro do último quinqüênio: 1942, 126 alunos; 1943, 181; 1944, 181; 1945, 161; 1946, 171; total dos 5 anos, 820. Num período de 25 anos, passaram pelos bancos escolares 2.620 alunos, o que representa contribuição valiosa à campanha contra o analfabetismo em nosso País.
 
Corpo docente
Não podemos passar sem comentário o trabalho admirável dos professores e diretores que, durante os 25 anos, vêm emprestando o seu esforço e dedicação ao ensino.
Escolhidos entre os moços da Congregação, exercendo sua missão sem recompensa alguma, depois da luta diária pelo pão, sacrificando momentos de merecido repouso, cumprem eles sempre a obrigação sagrada de permanecer ao lado dos alunos, ministrando sua experiência e luzes, com olhos fitos em Deus e na Pátria.
Dever de gratidão também recordar a assistência bondosa e vigilante dos dedicados diretores que teve a Congregação, no período em exame: padres Visconti, Cantessoto, Danti, Doppler, Rocha, Armelin, Rosman e Alvarenga, coadjuvados pelos incansáveis padres Celestino, Monsaert (de saudosa memória), Drumond, e muitos outros cujos nomes nos escapam.
 
Autoridades religiosas
Todos os excelentíssimos bispos diocesanos sempre enalteceram a obra da Escola, favorecendo-a com as suas bênçãos. Dos reverendíssimos padres provinciais da Companhia de Jesus, recebeu a Escola as maiores atenções e encorajamento.
 
Poderes públicos
Bem souberam compreender as nossas autoridades o que representa de boa e humanitária a obra da Escola e não se recusaram a esse reconhecimento, concedendo-lhe suas subvenções que, embora não tanto quanto foram de se desejar, somam apreciável contribuição. Aufere a escola as seguintes subvenções:
da Prefeitura Municipal de Santos - Cr$ 3.800,00 anuais.
do Governo Federal - Cr$ 3.000,00 anuais.


Autoridades de ensino
Acha-se a Escola sob a fiscalização permanente da Delegacia do Ensino, a quem presta todas as informações adstritas ao seu movimento escolar. Não devemos nos furtar de esclarecer a colaboração amistosa de que têm dado os diversos inspetores escolares, devendo relembrar os nomes dos professores Primo Ferreira, Sílvio Julião, Zenon de Moura, Malaquias de Oliveira e Luiz Damasco Pena, além dos dedicados fiscais.
 

A turma de 1944
Impressões antigas, mas atuais
 
Aindaa do relatório dos primeiros 25 anos da Escola Santo Inácio, consideramos oportuno registrar aqui algumas impressões de inspetores de ensino, professores e outras pessoas que, após visitar e verificar o trabaho desenvolvido na Escola, manifestaram seu entusiasmo pela obra dos congregados da CMA.
Em 5 de março de 1934, do sr. Malaquias de Oliveira Freitas, inspetor escolar: "Visitando mais de uma vez este estabelecimento de ensino levo a melhor das impressões. Não há palavras que possam bem traduzir o elogio que me vai pela alma, pela abnegação e devotamento dos distintos moços que aqui trabalham. Sacrificando horas de lazer, dedicam-se à educação moral e à instrução de quase uma centena de brasileiros que estariam condenados à ignorância se não fora o devotamento caridoso e patriótico dos moços da Congregação Mariana de Santos".
Em dezembro de 1934, do sr. Stockler de Lima, Inspetor da Instrução Municipal: "Na qualidade de representante do sr. prefeito municipal, visitei hoje a Escola Noturna Santo Inácio, assistindo aulas em todas as classes. De tudo que me foi dado ver e observar, levo as melhores impressões e deixo aqui consignados os meus louvores a esta casa de ensino, forte cooperadora na causa da alfabetização do nosso Brasil. Aos diretores, os meus aplausos e agradecimentos pelas gentilezas que recebi".
Em 30 de abril de 1941, do sr. Luiz Santos FIho, inspetor escolar: "Visitei hoje a Escola Noturna Santo Inácio, estabelecimento de ensino dedicado a proporcionar o ensino primário a alunos pobres, mantido pelos moços que formam a Congregação Mariana de Santos. Percorri as quatro classes em funcionamento, assistindo e dando aulas, e dessa visita colhi ótima impressão do trabalho realizado pelos dignos jovens marianos, trabalho este que reputo de elevado patriotismo. Estão matriculados 112 alunos e acham-se presentes 75".
Em 23 de outubro de 1942, do sr. Amadeu Damato, inspetor escolar: "Visitei hoje a Escola Noturna Santo Inácio. Encontrei-a funcionando com regularidade, possuindo um corpo de professores registrados numeroso. Os documentos acham-se em ordem, o mesmo dando-se com a escrituração escolar. Percorri as classes do 2º e 1º graus, tendo assistido e dado aula de leitura no 1º grau. Acham-se matriculados 97 alunos e estão presentes hoje apenas 43, devido ao tempo chuvoso. Encontrei afixado em quadro próprio o registro do estabelecimento. Observa-se no estabelecimento ótima ordem, asseio e disciplina. Ao seu diretor dei instruções sobre confecção de horário para cada uma das classes, discriminadamente".
Em 13 de setembro de 1928, do professor Olynto Orsini, presidente do Conselho Superior da União dos Moços Católicos e da Universidade de Minas Gerais: "Casa de Deus! Casa de Virtudes! Casa de instrução" São essas as palavras que afloram aos lábios dos católicos mineiros, ao entrarem na sede da Congregação Mariana de Santos. Deus abençoe os esforços desses abnegados semeadores do bem, que sacrificando interesses materiais e secnudários que o mundo oferece, sacrificando as horas de merecido repouso, se dedicam aos interesses imorredouros da alma, aos negócios puríssimos de Deus, transfundidos na alma de centenas de meninos, às luzes da religião e da ciência. Os embaixadores da União de Moços Católicos da Congregação Mariana de Minas trazem aos seus irmãos de Santos o seu amplexo fraternal e carinhoso, saudando-os com o coração e agradecendo ao Altíssimo a graça que lhes proporcionou de viverem alguns momentos essa vida santa, edificante, que se vive na sede desta exemplar Congregação. Salve congregados marianos de Santos".
Em 1931, do sr. José Domingos Ruiz: "Visitando esta Congregação Mariana, não posso deixar de consignar nestas breves linhas a ótima impressão que me causaram suas instalações, em que a maior parte é devotada à grande causa nacional: a educação pública. Como presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito de São Paulo, formulo os mais sinceros votos de prosperidade à brilhante Congregação Mariana de Santos. Deus a guarde".
 

Classe do primeiro ano em 1971, com a professora Dulcelina maria Ablas Dias Correa

 
 
Muitos saíram daqui e foram brilhar lá fora
 
Entre o meio milhar de congregados que passaram pela Congregação Mariana da Anunciação, foram muito raros os que não foram também professores da Escola Noturna Santo Inácio. Era quase uma condição "sine qua non" para ser admitido no sodalício, pois durante o noviciado, em que o rapaz era preparado para a consagração de sua vida à Maria Santíssima, era indispensável o seu apostolado no ensino das matérias constantes do currículo ou da aula de catecismo, como também no preparo para a primeira comunhão.
Muitos desses ex-professores tornaram-se, mais tarde, pessoas de posição destacada nos diversos cenários da vida. Na política, por exemplo, destacamos como vereadores em Santos, Lúcio da Silva Graça, Aristóteles Ferreira, que foi presidente da Câmara Municipal, e Fernando Dias Oliva, também por duas vezes presidente, sendo que numa delas chegou a ocupar interinamente o cargo de prefeito municipal.
Na vida religiosa, pode-se destacar o padre Edmundo Delgado e os irmãos leigos Luiz Machado Neto e Paschoal Maradei, da Companhia de Jesus. No laicato, como justo prêmio às suas sempre prontas colaborações às causas da diocese e exemplos como profissionais e chefes de família, foram agraciados pela Santa Sé com o título de "comendador" o fundador da Escola, Vicente Severiano Morel, e os já saudosos Antonio Ablas Filho e Ennio Emmerich de Souza.
No magistério, entre outros, pode-se lembrar o nome do sr. Carlos Pacheco Cirilo, reitor da Faculdade Católica de Direito de Santos; Ubi Bava, catedrático da Escola Nacional de Belas Artes; e Francisco Gago Lourenço Filho (N.E.: engenheiro agrônomo, professor e presidente do Conselho Administrativo do Programa Especial de Bolsas de Estudo - PEBE - do Ministério do Trabalho e Previdência Social, em 1969. Sua biografia foi incluída na publicação do jubileu de ouro da Escola Santo Inácio). [...]
 

O dr. Eros Santos Chaves paraninfou a turma de 1960. 
Era diretor Antonio F. Ribeiro Jr. e vice, Walter Byron R. Santos

Estes fizeram os 50 anos da escola
 
Em seus cinqüenta anos de ininterruptas atividades, a Escola Noturna Santo Ignácio foi sempre muito feliz no que diz respeito aos homens que presidiram as várias diretorias ou que a dirigiram. Por ali passaram pessoas de grande capacidade, atuantes e de inegável espírito empreendedor. Abaixo, numa espécie de homenagem a todos eles, damos a relação completa dos presidentes das diretorias e diretores:
 
Os presidentes
José Teixeira Coelho, em 1944, 46, 51, 57, 58 e 61; comendador Vicente Severiano Morel, em 1921, 34, 36 e 39; Milton Evangelista de Almeida, em 1929, 35 e 66; Marino Leite, em 1937, 49 e 50; comendador Ennio Emmerich de Souza, em 1941, 42 e 45; Nelson Fonseca Pereira, em 1952, 53 e 59; Lino Vieira, em 1923; Synésio de Andrade Fernandes, em 1926 e 43; Joaquim Sérvulo da Cunha, em 1928 e 30; Hely de Aguiar Botto Filho, em 1933 e 40; comendador dr. Antonio Ablas Filho, em 1955 e 56; dr. Eros dos Santos Chaves, em 1963 e 65; Vicente Greco, em 1922; dr. Paulo Dutra da Silva, em 1924; dr. Fábio de Aguiar Goulart, em 1925; Rodolpho Eduardo Fonseca, em 1927; Alaor de Souza Ablas, em 1931; reverendíssimo Irmão Pascoal Maradei S. J., em 1932; dr. Carlos Pacheco Cyrillo, em 1938; dr. Manoel Garcia Vilarinho, em 1947; Danton Evangelista de Almeida, em 1948; Angelo Pierre Sobrinho, em 1954; Italo Morgado Sartini, em 1959; Rubens de Moraes Pinto, em 1960; dr. Affonso Bernardo Fernandes Vitali, em 1962; dr. Roberto Machado de Almeida, em 1964; dr. Oscar Novoa, em 1967; Marcelo Emmerich de Souza, em 1968; José Alves Filho, em 1969; Nilo Nóvoa, em 1970; e Augêncio Miranda, o atual presidente da diretoria (N.E.: em 1971).

Os diretores
Reverendíssimo padre José Visconti S.J., seu fundador, já falecido, nos períodos de 1921 a 24 e de 1930 a 34; revmo. padre Angelo Contessoto S.J., já falecido, nos períodos de 1924 a 28 e de 1934 a 40; revmo. padre Carlos Doppler S.J., já falecido, de 1928 a 30; revmo. padre Francisco de Assis Rocha S.J., de 1940 a 42; revmo. padre Valentim Rozman S. J., de 1942 a 45; revmo. padre Waldomiro Alvarenga S. J. de 1945 a 53; revmo. padre Lauro Trajano Lopes, de 1959 a 60; revmo. padre José Achótegui S.J., de 1960 a 62; revmo. padre João da Silva Passos S.J., de 1962 a 71; revmo. padre Milton Paulo de Lacerda, seu atual diretor, desde fevereiro do corrente ano DE 1971.


Tradicionais colégios, que muito santista recorda com saudade, independentemente de serem públicos ou particulares, marcados por professores que se destacaram na Cidade, e por eventos que também fizeram história. A Escola Noturna Santo Inácio e a Congregação Mariana da Anunciação de Santos (CMA) surgiram em 1921 e sua história foi lembrada em uma revista editada especialmente pela escola em novembro de 1971, comemorativa do jubileu de ouro da instituição jesuíta (que naquela data foi declarada de Utilidade Pública, através de propositura do vereador Fernando Dias Oliva, na Câmara Municipal de Santos). Alguns dos textos, aliás, foram resgatados de outra publicação, editada 25 anos antes, no jubileu de prata festejado em 1946:
 


Em 31 de julho de 1959, o prédio escola fo inaugurado pelo então prefeito municipal Sílvio Fernandes Lopes e abençoado pelo bispo diocesano D. Idílio José Soares 

A construção do prédio, a atualidade da escola
 
Depois do Jubileu de Prata, inegavelmente o acontecimento de maior importância na vida da Escola Noturna Santo Inácio, em seus últimos 25 anos, foi a construção do prédio novo. No dia 12 de março de 1957, na festa comemorativa do 41º aniversário da Congregação Mariana da Anunciação, foi feito o lançamento da pedra fundamental. Pouco mais de dois anos depois, no dia 31 de julho de 1959, o novo prédio era inaugurado pelo então prefeito municipal Sílvio Fernandes Lopes e abençoado por D. Idílio José Soares, bispo diocesano.
Para que tudo fosse concretizado, porém, foi necessário o trabalho árduo dos congregados que, nos três anos em que a Prefeitura promoveu os festejos juninos na praia do Gonzaga, lá estiveram com suas barraquinhas, conseguindo um bom reforço nas verbas para pagamento das despesas assumidas. Além disso, chegaram também os donativos de particulares e, mais uma vez, o comércio santista compreendeu o alcance da obra, colaborando eficazmente para a conclusão das novas instalações da Escola. Houve, ainda, através do trabalho desenvolvido pelo congregado Fernando Dias Oliva, uma subvenção extraordinária concedida pela Prefeitura Municipal.
Dessa época para cá, com o ânimo renovado pelo êxito obtido, os congregados da Anunciação puderam fazer com que a Escola Noturna Santo Inácio fosse sempre se atualizando e se transformasse na feliz realidade que hoje é.
 

Vicente Grecco, Vicente Severiano Morel e Milton evangelista de Almeida, os mais antigos congregados, cortam o bolo do cinqüentenário


Atualidade
Agora, a Escola dedica-se exclusivamente à alfabetização de adultos, ao contrário de antigamente, quando trabalhava para dar instrução primária aos filhos de trabalhadores que não podiam arcar com as despesas. Assim, são mantidas em perfeito funcionamento as quatro classes do primário, em cujos bancos sentam-se homens das mais variadas profissões e idades. Lado a lado estão homens maduros, como sr. José Francisco de Lima, 51 anos, portuário, que cursa o 3º ano, e outros ainda bem jovens, que na época oportuna não tiveram condições ou não quiseram estudar.
Ao início deste ano, matricularam-se nada menos que 250 alunos, número que baixou para 150, devido aos mais diferentes motivos: cancelamento de matrícula, abandono, mudança de cidade e apenas dois casos de expulsões por indisciplina. O primeiro ano, a classe mais numerosa, tem 43 alunos, e como professora dona Dulcelina Maria Ablas Dias Correa, que substituiu dona Heloisa Simões Novoa, em junho do corrente ano. O segundo ano tem 32 alunos e suas professoras são Esther Tyoko Tsugumi e Jacinta Branco dos Anjos. João Vinciguerra é o professor do 3º ano, uma classe com 38 alunos, enquanto que Laine Yang é a professora dos 37 alunos do 4º ano. Dessas professoras, três delas são remuneradas pelo Estado. As aulas de religião são ministradas pelos congregados Milton Evangelista de Almeida, José Teixeira Coelho, José Nascimento dos Santos, Abílio Marques e José Carlos Libânio.
A Escola encarrega-se também de prestar assistência médica-jurídica-dentária aos alunos, através dos doutores Ozias Francisco de Oliveira, Osmar Novoa e Eros dos Santos Chaves, todos congregados da Anunciação. A assistência espiritual está a cargo dos padres Milton Lacerda e Cardoso.
A Escola funciona de segunda a sexta-feira com aulas no período de 19,30 às 21,30 horas. Antigamente, quando ainda existia o Santuário do Coração de Jesus, os alunos assistiam ali a missa dominical e depois iam para a sede da Escola responder à chamada e tomar o café da manhã. Agora estão dispensados disso, mas muitos deles ainda comparecem à missa dos primeiros sábados de cada mês, que é rezada na capela da Congregação.
 

Mesa diretora da solenidade dos 50 anos, incluindo o vereador Fernando Dias Oliva, o cel. Chaves do Amarante (representando o interventor federal em Santos), o deputado Athié Jorge Coury, José Teixeira Coelho (presidente do ENSI) e Antonio Fernandes Ribeiro Júnior (diretor do ENSI)
 
A maioria dos alunos da Escola exerce profissões de serventes de pedreiros, pintores, cozinheiros, copa de bares e portuários. Além da instrução propriamente dita, há a preocupação de ministrar-se também uma educação cívica, religiosa e moral, podendo-se citar aqui um fato curioso acontecido há alguns anos atrás. Um dos alunos matriculados era casado apenas no civil e seu casamento no religioso foi feito pelos congregados, sendo que o atual diretor da Escola, prof. Antonio Fernandes Ribeiro Júnior, foi um dos padrinhos do casal.
Anexo à Escola existe a Congregação Mariana de Nossa Senhora do Bom Conselho e Santo Ináico de Loiola, onde os alunos encontram o prosseguimento da assistência espiritual que lhes é ministrada, além de muita atividade esportiva e recreativa. Ali eles se reúnem aos sábados e divertem-se jogando futebol de salão, ping-pong, ou entretendo-se em outros jogos. Recentemente, durante a Semana da Pátria, a seleção de futebol da Escola disputou uma partida contra a Juventude da Catedral e venceu por 8 a 3, ganhando medalhas e o trofeu "Padre Cardoso". Além disso, todos os anos são promovidos excursões e pic-nics, sendo que no último dia 24 de outubro foi feita uma visita ao Jardim Zoológico, em São Paulo.
Dentre as atividades cívicas, ressalte-se que todas as datas nacionais são festivamente comemoradas, inclusive com trabalhos feitos pelos alunos, com os melhores ganhando medalhas. No ano passado, na comemoração do 49º aniversário da Escola, foi organizada uma exposição de artesanato. A mostra foi idealizada também para homenagear o professor Milton Evangelista de Almeida, que comemorou seus 50 anos como congregado da Anunciação. Entre os trabalhos apresentados destacavam-se um mapa do Brasil de palitos de fósforos e uma corrente de madeira sem emendas. 
 
Barraca junina ajudou no pagamento das dívidas assumidas na construção do prédio novo, nos anos 1957, 1958 e 1959
 

Sesi colabora - Outro ponto de destaque na vida da Escola é a colaboração que, através dos anos, o Sesi vem emprestando, fazendo com que os anos passados nos bancos da Santo Inácio possam ser ainda mais benéficos aos alunos. São os casos de alguns cursos promovidos por essa instituição, como o de Relações Humanas, realizado anualmente, bem como o de Moral e Cívica. Outro curso muito importante promovido pelo Sesi é o de prevenção de acidentes - que, como os demais, fornece certificados de freqüência e diplomas aos alunos que o assistiram.
Importante também realçar que foi o Sesi o doador do galpão situado ao fundo dos prédios da Escola e da Congregação Mariana da Anunciação. Nesse local são realizadas as solenidades cívidas e religiosas, reuniões sociais, e é nele que está situada a quadra de basquetebol e futebol de salão.
Diretoria - Atualmente (N.E.: em 1971) a diretoria da Escola está entregue ao professor Antonio Fernandes Ribeiro Junior, sendo seu presidente o sr. José Teixeira Coelho. O secretário é o sr. José dos Santos. 
 

Capa frontal da revista comemorativa do jubileu de ouro da escola, publicada em 11/1971

 

Neste discurso as saudades e evocações de um congregado  
Discurso proferido pelo congregado Fernando Dias Oliva, ex-professor e ex-diretor durante vários anos da Escola Noturna Santo Inácio, à abertura das comemorações do Jubileu de Ouro da escola, no dia de seu patrono, Santo Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus, que nesses cinqüenta anos assistiu espiritualmente os seus alunos, por meio de seus sacerdotes, no dia 31 de julho do presente ano (de1971):
"Reunem-se hoje para comemoração do dia de Santo Inácio, a Congregação Mariana da Anunciação e São Luiz Gonzaga, a Escola Noturna Santo Inácio e a Congregação Mariana de Nossa Senhora do Bom Conselho e Santo Inácio. Nasceram, cresceram e significam tanto em nossas vidas, graças à orientação que lhe imprimiram, desde a fundação, os reverendíssimos padres jesuítas. Sem essa orientação segura, jamais teriam prosperado tanto como prosperaram, nos campos espiritual e material.
Concebeu-as, fundando inicialmente a Congregação Mariana de Santos, a 12 de março de 1916, o saudoso padre José Visconti, o qual reuniu para isso um grupo de jovens nascidos ou radicados em Santos que, pelo exemplar comportamento recomendavam-se como integrantes do Exército Mariano. E assim, naquela data, sob a orientação do Padre Visconti, os jovens Joaquim de Campos Sena Neto, Joaquim de Almeida Miranda, João Clímaco Silveira, Nelson José Miranda Aguiar, Salvador Lapetina, Salvador Vasconcelos, Sílvio Almeida Miranda, Luís Duarte Ventura, Carlos Marteau, Henrique Moura Silva, Naylor da Silva, Júlio Cezar Toledo Murat e Vicente Severiano Morel, fundavam a primeira Congregação Mariana de Santos.
Enriquecida por novos elementos que, atraídos pelo exemplo dos fundadores, se integraram à entidade, a Congregação passou ao trabalho de apostolado, visitando enfermos e presidiários, ensinando o catecismo, atuando efetivamente em cada meio-ambiente onde se encontrasse um de seus membros, até que o Padre Visconti a julgou em condições de uma responsabilidade maior, fundando a 15 de novembro de 1921 a Escola Noturna Santo Inácio, destinada a oferecer instrução primária a filhos de operários que, impossibilitados de estudar durante o dia, por trabalharem para ajudar na manutenção dos seus lares, tinham de fazê-lo à noite. Ao mesmo tempo, através das aulas de religião, a Escola os orientava no sentido de que fossem futuros homens capazes de defender os princípios aqui hauridos.
E, pelos bancos da Escola Noturna Santo Inácio, passaram muitos jovens que hoje ocupam posição de destaque nos mais variados setores de atividades em Santos. Eram homens instruídos e bem formados que daqui partiam, sem uma oportunidade de se reunirem novamente. Havia necessidade de se fundar uma organização que possibilitasse contatos permanentes, após os quatro anos de convivência na Escola. E nada melhor que uma Congregação. Daí surgiu a idéia da fundação da Congregação Mariana de Nossa Senhora do Bom Conselho e Santo Inácio de Loiola, reunindo os ex-alunos.
A Congregação Mariana de Operários é outro fruto do trabalho persistente dos Congregados da Anunciação que denota a preocupação permanente de ampliar as fileiras marianas.
A última grande realização da Congregação foi a fundação da Paróquia de Santa Margarida, na zona Noroeste da Cidade, bairro novo, com grande densidade populacional e inteiramente desprovido de um templo católico, onde se multiplicam centros espíritas. Trabalho extraordinário ao qual deu o maior de seus esforços, de sua inquebrantável força de vontade e de inexcedível espírito cristão, um homem cujo nome todos nós pronunciamos com o mais profundo respeito e com a mais enternecida saudade, pelo muito que fez por esta Casa e pela Igreja, como católico e como chefe de família, a par de admirável simpatia com que a todos contagiava: Emerich de Souza.
E, nesta hora de evocações, quando nossos corações se estreitam num profundo sentimento de saudade, e só os exemplos deixados pelos que se foram servem como bálsamo para esta saudade, recordemos alguns dos nossos que não mais se encontram entre nós e que marcaram de forma inconfundível suas passagens por esta Casa: Lino Vieira, Fábio Goulart, Marino Leite, Antonio Ablas Filho e Ângelo Pierri Sobrinho - todos, como Ennio Emerich de Souza, ex-presidentes, além de muitos outros.
De Lino Vieira, contam-nos seus contemporâneos, o amor à causa mariana e a dedicação aos atos espirituais da Congregação; Fábio Goulart, o católico que ultrapassou as fronteiras da congregação para projetar-se num trabalho piedoso da causa da Igreja, chegando inclusive à presidência da Confederação das Famílias Cristãs em São Paulo; Marino Leite, o eterno apaixonado pela Congregação, que muitas vezes chorou aqui ao relembrar os grandes dias de nossa entidade, procurava tudo prever e prover; Antonio Ablas Filho, o místico, provou na presidência o quanto um místico pode, ao mesmo tempo, ser místico e homem de ação; Ângelo Pierri Sobrinho, o nosso querido Formiguinha, cujo acendrado amor à causa mariana o levava muitas vezes a servi-la pelo modo que entendia os melhores; lembro-me que durante o Ano Santo foi feita uma encomenda de uma bandeira às freiras do "Stella Maris", como parte das comemorações que então se realizavam. Durante uma reunião do Conselho, Ângelo Pierri Sobrinho, como presidente, dirigiu-se ao nosso diretor espiritual, num apelo dramático, afirmando: "Padre Alvarenga, a confecção da bandeira está demorando muito. O senhor precisa apertar as freitas do Stella Maris".
E nossos diretores espirituais? Ao Padre Visconti sucederam os reverendíssimos padres Doppler, Dante Cantessoto, Rocha, Armelin, Rozman, Alvarenga, João Tracta, Lopes, Archotegui, Passos, cada um com as características próprias de cada temperamento humano, mas todos eles incansáveis no trabalho e insuperáveis no amor aos nossos, presentes a todos os nossos movimentos espirituais e materiais, cuidando das entidades como bons chefes de família cuidam de seus entes queridos.
Contamos em nossas vidas com a figura moça do padre Lacerda, herdeiro de excelsas virtudes dos seus pais, os quais o encaminharam, através de excelente formação, à Companhia de Jesus. Nele homenageamos todos os nossos ex-diretores.
E como esta festa é de evocação e recordação, destinada a preparar a grande festa do cinqüentenário da nossa Escola, que ocorre neste ano, resolvi escolher um de nossos ex-diretores para, relembrando fatos ligados a ele, relembrar a todos. Falo do padre Waldomiro Alvarenga, festa para nossas inteligências, atuação marcante em nossas reuniões semanais de estudo e formação, presente sempre, durante os anos que nos dirigiu, a todas as atividades da Escola, olhando-a como menina dos seus olhos, acompanhando, ministrando aulas de catecismo, preparando jovens para a primeira comunhão, ensinando sempre, mesmo quando nos entretinha com suas famosas palestras todas as noites em nossa sede, ao tempo do velho sofá que chegou a provocar uma assembléia geral para saber-se se seria ou não retirado. 
Foram realmente noites memoráveis e inesquecíveis, as do padre Alvarenga na Congregação. Havia congregados que aqui vinham só para ouvi-lo e quando, por razão muito forte - e isso raramente acontecia - ele não comparecia, havia um desencanto geral.
Conheci poucos homens, em minha vida particular e pública, com a visão, a inteligência, a capacidade de comunicação do padre Alvarenga. E muitas vezes nós lhe fazíamos perguntas cujas respostas denotavam um espírito crítico e uma argúcia impressionantes. Lembro-me que, de certa feita, ouvi um excelente orador sacro e, no dia seguinte, disse ao padre Alvarenga. Ele respondeu-me: "Excelente orador. Mas, não gostei do sermão". Qual a razão? "Faltou unção". Meu semblante demonstrava que não havia entendido a resposta. Ele então, com a suavidade dos homens cultos e a tranqüilidade dos ascetas, explicou-me o significado da resposta. Era assim o nosso querido padre Alvarenga: uma lição a cada frase. Como estaria feliz se hoje pudesse estar entre nós, assistindo aos preparativos da festa da Escola que ele tanto amou e à qual deu tudo de si. Estará nos acompanhando de São Paulo e rezando para que a Escola seja cada vez mais a casa de fé que sempre desejou que fosse." [...] 
Fernando Dias Oliva, lendo seu discurso
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